*Por Samanta Lopes

Vou começar este artigo propondo um exercício: busque em suas lembranças livros que leu, filmes a que assistiu, empresas que conhece, escolas e grupos com os quais convive. Quantas pessoas negras, gordas, com deficiência, enfim, quantas pessoas “diferentes” você viu em cargos de gestão, diretoria ou até mesmo como donas de grandes negócios?

Agora voltemos um pouco antes, na sua fase escolar: quantas crianças negras, gordas, com deficiência ou “diferentes” eram líderes de atividades, recebiam elogios perante toda a sala, ou eram chamadas para serem protagonistas em apresentações e representar a sala ou a escola em eventos?

Como educadora, vejo, no cotidiano dos grupos com os quais atuo, muitas pessoas com baixa autoestima e poucas se colocando como protagonistas capazes de mudarem o que o mundo diz a elas, todos os dias. Meu esforço então, é conscientizá-las sobre suas potências, porque acredito que o ser humano aprende a vida toda. Vamos ajustando nossas preferências, entendendo em que somos muito bons e o que nos causa mais esforço para desenvolver, e, se o tópico for fundamental para avançarmos, nos esforçamos ainda mais para aprender. Porém, isso só é possível quando temos escolhas.

Há um vídeo no YouTube, do pesquisador e biólogo Atila Iamarino, no qual ele fala da meritocracia e matematicamente, através do Tabuleiro de Galton ou Quincux, mostra que a tal “sorte” e o “acaso” são fatores incontroláveis e têm um peso enorme nas oportunidades que recebemos pela vida.

Sobre esse assunto, acrescento que os preconceitos estruturais têm relação direta com o conceito citado por Iamarino, uma vez que, desde pequenos, a sociedade nos diz que há pessoas “certas” ou “ideais”. Assim, nos são  impostos modelos, incutidos pelas mídias por meio de filmes, vídeos, revistas, entre todas as outras formas de comunicação multimidiática. Incluo aqui livros e apostilas escolares; tudo a nossa volta envia mensagens sobre quais devem ser os “padrões aceitos”. E a grande maioria de nós não faz parte do recorte.

Um dos pesquisadores da camada mais profunda da psiquê humana, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, fez todo um estudo sobre o inconsciente coletivo, um processo que estudamos em publicidade, base, por exemplo, da jornada da heroína ou do herói, um padrão comportamental inconsciente que influencia pessoas por todo o mundo, não importa em qual cultura estejam, e que define o que as move quando um filme como Matrix, Avengers, entre outros nessa mesma linha é lançado, alcançando recordes de bilheterias.

Toda essa contextualização vem para provocar duas reflexões: somos o que vivemos no macro, ou seja, se nossas referências desde a escola são pessoas brancas, magras, esteticamente ditas bonitas, como podemos crescer e admirar pessoas fora desses padrões? E, como lidar com o viés inconsciente que nos leva a agredir, afastar ou ignorar tudo o que foge ao padrão social normativo?

Agora, vamos ao ambiente corporativo, onde deveríamos ver a diversidade social que nos rodeia, e não a vemos. Por que não estranhamos quando não há pessoas negras, gordas, com deficiência, da comunidade LGBTQI+ entre outras pluralidades presentes? Por que não nos questionamos quando elas só estão nas mídias de entretenimento, como Jô Soares, Bielo Pereira, Elza Soares, Emicida, ou são consideradas apenas para prestar serviços em vez de serem CEOs das empresas? Por que aceitamos que a cultura é considerada popular quando falamos de obras de pessoas com conhecimento profundo de temas complexos como Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Milton Santos, entre outras, e não cobramos que estejam na academia, como foi negado em 2018 à premiada escritora negra Conceição Evaristo?

Aqui reside o mote deste artigo: como demitir o viés inconsciente e dar oportunidade para que pessoas incríveis estejam dentro das empresas, gerindo e criando uma sociedade mais equânime?

Temos de conhecer suas histórias, temos de nos aproximar das pessoas e ouvi-las, abrir espaços de diálogo em que possam expor suas potencialidades. O TEDx é uma iniciativa que vem abrindo espaços para nomes desconhecidos, aprendizagens incríveis, de gente do mundo inteiro. Porém, até mesmo nesse palco tão plural, há constante busca por pessoas que possam ser referência e, em sua maioria, ainda são “heróis e heroínas de pele branca, sem deficiências aparentes e não gordas”.

Não sou contra pessoas brancas; sou a favor de todas as pessoas que estão invisibilizadas, silenciadas e excluídas das oportunidades de acesso a uma vida melhor.

Hoje, de alguma forma, parte dessas pessoas conseguem levar suas vozes, corpos e identidades à internet, expondo-se em lives nos canais no Instagram, YouTube, TikTok, porém no ambiente corporativo, no mundo onde há bons trabalhos e boas condições de crescimento profissional e pessoal, ainda sofrem com barreiras quase intransponíveis que vão desde serem desconhecidas até terem pouca formação acadêmica que as impedem de acessar ou não conseguem permanecer, muitas vezes porque a educação é segunda opção quando elas têm de ajudar nas contas da casa, ou ainda porque, quando são vistas pelas pessoas que irão recrutá-las, não atendem ao “esperado”.

Passamos da hora de demitir o viés inconsciente. Temos de agir desde a pré-seleção, entendendo quem queremos acolher, como podemos ajudar a formar e como despertar seu potencial para que sejam talentos incríveis em qualquer lugar, porque todos são pessoas incríveis que só precisam de oportunidades.

*Samanta Lopes é coordenadora MDI- Programa de Capacitação Mestre Diversidade Inclusiva  da um.a #DiversidadeCriativa, agência de live marketing especializada na criação e realização de eventos, incentivos e trade.

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