Por Marília Cardoso

O Nubank, maior banco digital do mundo fora da Ásia, anunciou recentemente a marca de 20 milhões de clientes. A startup, que figura como a quinta maior instituição financeira do Brasil, atrás de Itaú, Santander, Bradesco e Banco do Brasil, tem um valor de mercado de R$ 40 bilhões, no entanto, nunca deu lucro.

Só no primeiro semestre de 2019, a empresa teve um prejuízo contábil de R$ 139 milhões. Um salto de 172% em relação ao mesmo período no ano anterior, quando o prejuízo foi de R$ 51 milhões. Segundo os fundadores, Edward Wible, Cristina Junqueira e David Vélez, os balanços negativos são uma “escolha interna”. O foco é o crescimento e não o resultado. As contas são fechadas com os milhões recebidos em aportes. A grande questão é: até quando?

O fato nos remete à Netshoes, que durante duas décadas sonhou em ser o primeiro unicórnio brasileiro – empresa que vale mais de US$ 1 bilhão, mas acabou vendida para o Magazine Luiza, em junho de 2019, por US$ 115 milhões sem nunca ter dado lucro.

A empresa 100% digital, que nasceu num estacionamento em frente à universidade Mackenzie, em São Paulo, alcançou um valor de mercado de US$ 800 milhões quando abriu capital na Nasdaq, em 2017. O projeto do fundador, Marcio Kumruian, era ter grandes fundos e investidores como sócios, até que a lua de mel como mercado simplesmente acabou. Segundo apurado pela revista Exame, a dívida da empresa chega a R$ 480 milhões.

Casos assim não são uma exclusividade do Brasil. No aclamado Vale do Silício, a ex-bilionária Elizabeth Holmes, que ficou conhecida como a versão feminina de Steve Jobs, está na rua da amargura e sem dinheiro para pagar advogados. A jovem norte-americana que começou a empreender aos 19 anos e fez sua empresa chegar a valer US$ 9 bilhões em 2014, fechou as portas em 2017.

A Theranos, que prometia exames de sangue complexos com apenas algumas gotas de sangue analisadas em máquinas que pareciam uma impressora, revelou-se como uma grande fraude. Um processo em esfera federal foi aberto contra ela na justiça dos Estados Unidos e seus bilhões viraram pó. Ela está proibida de chefiar ou participar de conselhos de empresas de capital fechado ou aberto nos próximos dez anos e luta para não ir parar atrás das grades.

Negócios inovadores e disruptivos, tais como Nubank, Netshoes e Theranos, são sempre importantes para criar impacto e fazer o mercado se mexer na busca por melhores produtos, serviços e processos. No entanto, na matemática dos negócios, um mais um será sempre dois.

Por mais seduzidos, encantados e empolgados que os investidores fiquem por uma ideia, uma hora, os números falarão mais alto. E é aí, que muitas vezes, os sonhos se tornam pesadelos. Para um lado, que se envaideceu com o clamor das capas de revistas, e para o outro, que colocou dinheiro com a promessa de lucros fáceis e fartos, e viu seu investimento simplesmente ruir.

É claro que o empreendedorismo inovador demanda uma certa dose de ousadia. O mundo é dos que desafiam o status quo. Mas o que diferencia o remédio e o veneno é somente a dose. Sabemos que ninguém colhe sem plantar. É preciso tempo para preparar o solo, lançar as sementes e vê-las germinar para só então começar a colheita. No entanto, aumentar a plantação de forma desenfreada, sem considerar pragas e tempestades, sem uma reserva para emergências, pode ser sinal de perigo. Como diria Jorge Ben, prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem a mal ninguém.

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