Os brasileiros já passaram (e sobreviveram) a diversas crises: de políticas a econômicas, de abastecimento de água a greve dos caminhoneiros. Agora, em nível mundial, fomos surpreendidos pela pandemia Covid-19, que impôs o isolamento social e está mudando as formas de consumir, comportar, trabalhar, comunicar.

É fato que sobreviveremos a mais esse grande impacto e com muito aprendizado. Empreendedores e executivos de diversas áreas de atuação contam as lições que estão tendo, tanto pessoal quanto profissionalmente, neste período de quarentena.

Lorelay Lopes, Head de Negócios do UP Consórcios, fintech criada pela área de inovação da Embracon, destaca que o primeiro impacto sentido foi a agilidade com que lidaram com Compliance e tecnologia. “Vivenciamos no dia a dia muitas dificuldades com autorizações e prazos, principalmente no que diz respeito à segurança da informação. Diante da necessidade de isolamento, a inovação na empresa foi impulsionada de forma nunca antes vista, sem necessidade de workshops ou consultorias sobre cultura corporativa. Houve muito comprometimento dos colaboradores”, diz a executiva. Na vida pessoal, o que mudou muito rápido foram as prioridades e o valor dado a algumas coisas. Junto à família, está criando novos hábitos, adaptando a rotina e buscando formas de se relacionar dentro e fora de casa.

Felipe Buranello, CEO da Maria Brasileira, rede de franquias de limpeza e cuidados residenciais e corporativos, diz que com planejamento e disciplina é perfeitamente possível trabalhar home office e que agora está produzindo muito mais porque tem a praticidade de estar em casa, onde pode almoçar, jantar, responder e-mail, falar com a equipe e se planejar melhor. Aprendeu também a importância da transparência que, embora faça parte do DNA da empresa, ficou mais evidente por meio da comunicação o tempo todo com colaboradores e franqueados, seja por lives e webinars nas redes sociais. “Pessoalmente, aprendi que a solidariedade e a empatia estão dentro de todo mundo e que aflora em momentos difíceis. Senti isso na pele com as mensagens de apoio que recebi e vendo um ajudando o outro em diversas situações”, diz Felipe.

Mathieu Le Roux, cofundador de Le Wagon na América Latina, startup francesa de ensino de programação pela metodologia de bootcamps, diz que a resiliência é uma característica a ser prezada por empresas no momento atual – e ela só pode ser exercitada por meio de uma excelente cultura de trabalho interna. “A obrigação de exercer o trabalho à distância alterou totalmente os processos de controle antiquados em que os times trabalhavam”. A confiança na dedicação dos times também é um esforço necessário, tendo em vista o distanciamento causado pelo home office. “A crise forçou todo mundo a entrar numa fase em que confiamos que as pessoas vão se dedicar. Eu sempre costumo dizer que o difícil não é querer contratar “adultos” para juntar integrar seu time, o difícil é tratá-los como tais depois”, diz. “A crise é um terrível revelador de personalidade, pelo bem ou pelo mal, mas é também um filtro para empresas com cultura robusta que conseguiram se adaptar”, completa Mathieu.

Alex Monteiro, um dos sócios da Non Stop, maior gerenciadora de artistas e influenciadores da América Latina Primeiro, destaca a empatia, tecnologia, consciência coletiva e a valorização de momentos especiais. “Como sociedade, estamos tendo que aprender a valorizar o outro e pensar diante das dificuldades dele. Empatia terá que ser aprimorada a cada dia, para que possamos retornar o crescimento pós pandemia. Também conseguimos entender que a tecnologia se torna essencial por aproximar pessoas, e que elas devem e podem ser produtivas virtualmente, normalmente, tratando-se de trabalho. A adversidade nos leva a sermos mais criativos, a pensarmos fora da caixa e nos reinventarmos. Diante das dificuldades, os conflitos corporativos que acontecem normalmente são substituídos por um nível maior de consciência do coletivo e do espírito de equipe, onde todos estão focados em soluções”, avalia Monteiro. Na vida pessoal ele cita a  valorização dos momentos especiais, como estar ao lado da família e das pequenas coisas, como o direito constitucional de ir e vir e o respeito a fragilidade da vida e ao próximo.

Márcio Mantovani, sócio-fundador do Clude, clube digital de vantagens com foco em saúde e qualidade de vida, acentua suas percepções sobre o mercado e a economia. “Nenhum país poderá ficar refém da cadeia logística de outro país ou fornecedor. Além disso, as pessoas aprenderão a lidar melhor com o dinheiro: o fato do Brasil nunca ter passado por guerras ou catástrofes naturais fez com que a população não tivesse uma cultura de poupar para momentos de emergência. As pessoas, e também as empresas, aprenderão e estarão mais preparadas para os momentos de dificuldade a partir de agora.”  O administrador de empresas afirma que haverá mais valorização das relações pessoais e maior envolvimento religioso. Márcio destacou também suas percepções pessoais, como empresário. “Senti bastante dificuldade em me adaptar ao trabalho home office, em casa existe uma acomodação natural e a falta de interação com outras pessoas atrapalha bastante. Por outro lado, o convívio com minha esposa e filhos tem nos tornado ainda mais unidos”.

Luiz Antonio Sacco, diretor-geral da Ripple para o Brasil e América do Sul, fintech líder global em soluções para empresas com ajuda de um sistema baseado em blockchain, diz que a importância de manter manter uma rotina de horários também times engajados é um dos grandes desafios do novo modelo de trabalho imposto  apesar de um ritmo mais lento de execução das coisas. “Com a maior permanência em casa, tenho achado bem positivo as oportunidades de conversas mais longas com a família. Vários assuntos que antes ficavam mais entrecortados com as agendas mais intensas do dia-dia são mais facilmente discutidos”, diz. Luiz também acredita que as pessoas estão mais disponíveis, apesar do cenário atual ter expandido os desafios e compromissos diariamente. “Acredito que isso esteja ocorrendo pela combinação de dois fatores: a reflexão individual perante uma situação que não controlamos expõe o lado humano de cada um; com o trabalho em um ambiente mais ameno em relação ao corporativo”, completa.

Fellipe Couto, CEO da Vulpi, plataforma de RH Tech que conecta profissionais de TI e empresas, comenta que neste momento é importante manter a calma, tomar decisões  baseadas em dados, manter a transparência com todo o time, pensar no grupo, no entanto, mantendo a razão. Couto comenta que está conversando mais com outros empresários, ao menos um por dia e inclusive de diferentes setores, buscando de outras fontes informações. Essa iniciativa o tem ajudado nas tomadas de decisões. Ele reforça a importância de criar um plano estratégico e criar um mapa de risco com cada ponto da operação. “Eu tenho que pensar o pior cenário, para trabalhar pelo melhor”, afirma.

Cassiano Maschio, diretor comercial e de marketing da Inbenta Brasil, empresa global especializada em atendimento online, analisa a importância da empresa já ter uma estrutura preparada para o home office, da reserva financeiro e um plano de contingência da crise com possibilidade de rapidamente reduzir custos, manter receita, flexibilizar contratos. Maioria das companhias não tinham esse plano bem claro. Outro ponto importante é reforçar o relacionamento com o seu cliente nesse momento, oferecer todos os  meios de comunicação, como telefones e chatbots, para que os seus consumidores não se sintam abandonados, seja pela falta da presença física ou da insegurança do momento. “Já nas primeiras semanas da quarentena registramos um aumento de 100% nos canais de atendimento online”, relata.

Roberto Rocha, CMO da leadlovers, plataforma de automação de marketing digital e vendas, analisa que todo o planejamento estratégico e objetivos traçados para este ano, em qualquer negócio, estão sendo ou precisam ser revistos. “O cenário mudou para todo mundo, devido a algo que não temos como controlar, um fator externo que afetou a todos. As empresas que não tinham métricas bem definidas anteriormente com dados para guiá-las vão sofrer ainda mais, sem saber qual a direção e isso é preocupante, pois pode gerar um efeito cascata na economia. No entanto, precisamos todos nos adaptar a este novo ambiente de trabalho, e como gestor, atender a equipe da melhor forma possível, mesmo que remota”, aponta.

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